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29.10.15

Design ativismo de Fabio Lopez:
por um design com pensamento crítico


Começamos lembrando que todo design, toda escrita e qualquer fala tem uma mensagem a ser transmitida, resta-nos escolher qual será esta mensagem.

Apesar de definições, muitas vezes, não conseguirem explicar as coisas recorro a uma delas :) Começo esta breve conversa sobre ativismo no design trazendo uma definição de designer ativista, que seria:  “uma pessoa que usa o poder do design como um bem maior para a humanidade e para a natureza. É um agente livre, um catalisador social; um facilitador e criador. Alguém que faz as coisas acontecerem". Esta definição é de autoria do designer ativista e escritor Alastair Fuad-Luke, autor do livro “Design Activism – Beautiful Strangeness for a Sustainable World”, de 2009, e de diversas outras produções mais recentes. Foi quem também cunhou o termo Slow Design.  Segundo ele, esse ativismo tem um duplo objetivo: trazer impactos positivos para a vida e o trabalho, e desafiar e revigorar a prática do design.

Podemos também trazer que o designer ativista está ancorado no design autoral e, geralmente, pretende transmitir uma mensagem que considera importante, que têm como fundamento manifestações políticas, ambientais ou sociais.

Tá. Ok. Entendi. Mas como eu faço isso? Bom, nós, designers, podemos contribuir diariamente em nossa atuação profissional. Para entendermos melhor convido-os a conhecer Fabio Lopez, carioca, designer e mestre pela ESDI/UERJ, e professor da PUC-Rio. Em 2015 publicou o projeto mini Rio, uma homenagem e um extenso exercício de representação visual que resultou na criação de mais de 200 pictogramas e padronagens sobre a cidade do Rio de Janeiro. É autor dos projetos War in Rio, Bando Imobiliário Carioca e Batalha na Vala, tríade de paródias que aborda o tema da violência urbana na cidade do Rio de Janeiro. Trabalhou na criação da marca dos Jogos Olímpicos 'Rio 2016' (é ele no video abaixo a partir do minuto 3:06) e desenvolveu a identidade visual do Centro Carioca de Design, além de diversos outros projetos, também pesquisa design filatélico e desenvolve selos postais para os Correios do Brasil.








Sobre a trajetória de Fabio Lopez

"Depois de 15 anos de carreira, ao renovar meu cartão de visitas, escrevi embaixo do meu nome algo que me orgulho muito de ostentar: designer independente. Isso quer dizer que consegui algum tipo de autonomia profissional - bem como confiança e maturidade - para determinar o que quero fazer e onde quero investir meus esforços criativos. Seguramente não era o tipo de coisa que eu almejava como definição quando era estudante ou recém formado. Talvez eu quisesse ter minha própria agência de design, com clientes grandes, cadeiras caras, reuniões intermináveis... Hoje em dia tudo que eu quero é sentir cada vez mais o vento na cara e poder escolher os projetos que desejo realizar - e isso me custou muito empenho para escrever outra coisa no meu cartão pessoal (o que não exclui reuniões, clientes e cadeiras - não tão caras, rs)."




Fabio Lopez acredita que o design gráfico é um poderoso instrumento de produção cultural e discussão política

"Quando assisti o primeiro 'Tropa de Elite' numa segunda feira chuvosa e feia, fui sozinho, pra pensar... O filme já era aquele sucesso: todos repetindo as frases do Capitão Nascimento e idolatrando o Bope como justiceiros da cidade, sem aprofundar o que aquilo significava de fato. Sempre me interessei muito pelas questões de segurança pública da cidade, em função do tamanho do problema e da maneira como ele afeta a todos nós, cariocas ou não. Então tudo isso (o filme e a repercussão) me perturbava um bocado, sobretudo pela maneira excessivamente descontraída como as pessoas estavam se relacionando com um tema pesado, triste e que impactava muitas pessoas de um jeito muito duro para virar piada."

"Saí do cinema num clima pesadão (apesar de ter curtido o que vi, é uma produção muito boa), olhei em volta e pensei 'estou no set de filmagem, que merda'. O filme desceu de lado, e eu resolvi realizar um projeto que há muito adormecia na gaveta. Foi o incentivo, o empurrão e o contexto de criação, ou seja, o caldo onde esse coacervado resolveu vertebrar-se ao contato dessa faísca proporcionada pelo filme do Padilha."

Assim surgiu o jogo manifesto WAR IN RIO de Fabio Lopez.







War in Rio - primeiro jogo manifesto de Fabio Lopez


"O 'Tropa 2' tem um discurso bem mais maduro (assim como o Bando Imobiliário), e conta uma história ainda mais profunda. A sequência me veio instantaneamente, como opção à prostração, tristeza e a desesperança que o filme consolida."










Bando Imobiliário Carioca - jogo manifesto de Fabio Lopez


"Costumo dizer que nem sempre a força motriz de um bom projeto provém de uma energia estritamente 'positiva'. Muito pelo contrário, as vezes raiva, angústia e indignação são elementos mais poderosos para te colocar em ação que esperança ou vontade de fazer o bem. Não só a violência urbana, mas a injustiça social desse país é /ou deveria ser um agente catalisador de grandes projetos pessoais, autorais e independentes. Nem todo mundo tem vocação para ação, mas não é pouca coisa parar o que se está fazendo, ou redirecionar seu discurso para causas realmente importantes - no lugar de simplesmente alimentar a máquina de consumo. São 5 minutos que você rouba das pessoas para desperta-las desse constante estado de anestesia. O resto do tempo é preenchido com entretenimento - algo que tanto aqueles filmes como meus projetos não deveriam ser."
Batalha na Vala - mais um da série de manifestos sobre a violência urbana




Sobre ser um designer ativista 

"Tomando ao pé da letra o termo, geralmente meu ativismo fica por conta de minha atividade acadêmica. É uma geração muito carente de mentores, por que a maioria dos profissionais reconhecidos no mercado está associado à maquinação do consumo e não ao pensamento crítico (como há alguns anos atrás já não foi assim). Nessa batalha silenciosa da academia, estou investindo minhas energias há alguns bons anos."

"Todo designer que está envolvido com educação é ativista por natureza - derive seu envolvimento de uma convicção ou necessidade. Passo boa parte do meu tempo trabalhando em prol da capacitação profissional de novos designers - tenho feito isso nos últimos anos - e essa é uma ação concreta de transformação. Mas não vejo muito sentido em buscar algum tipo de classificação pra determinar se esta ou aquela ação se enquadra na definição clássica de 'ativismo' (no sentido mais físico ou concreto da palavra). Todo projeto é uma afirmação capaz de impactar em algum nível a sociedade: a grande questão é saber de que maneira queremos fazê-lo, qual a mensagem, ou quem e o quê estamos querendo transformar."



Sobre o papel dos designers na realidade social e política de nossas cidades, país e mundo

"Designers sabem manusear como poucos profissionais ferramentas de comunicação muito poderosas: vivemos num mundo intermediado por imagens, e somos produtores altamente capacitados de forma e conteúdo. Podemos usar nossa expertise profissional para convencer as pessoas a amarem uma marca ou ampliar as vendas de um salgadinho - ou para evidenciar, destacar e denunciar algo importante e de interesse coletivo. Infelizmente, a grande maioria dos designers não pode simplesmente escolher um caminho pelo qual deseja seguir: o dinheiro circula através das redes de financiamento do consumo e romper com essa estrutura nem sempre é uma opção simples, ou uma escolha propriamente dita. Gostaria muito que todos saltassem desse bonde desenfreado do consumo, mas isso é uma utopia à qual não me permito acreditar. Quem sabe criamos linhas paralelas de atuação, até criarmos modelos de financiamento capazes de competir em pé de igualdade com a indústria do consumo. Aos pouquinhos, cuidando com mais carinho das novas gerações, proporcionando espaços de reflexão, experimentando alternativas de empreendedorismo e remuneração independente, talvez equilibremos essa balança. O que não podemos aceitar é a ditadura do consumo como modelo único de atuação: essa é uma compactação atrofiada de nossa capacidade profissional, inadmissível. Podemos muito mais que isso!"


Fabio também criou o manifesto "12 passos para um Design não solicitado"  no qual o texto sugere em 12 etapas a criação de um design propositivo e não solicitado para fazer a diferença. Neste, Fabio Lopez pensou no designer empreendedor e no designer ativista porque "o designer ativista é um empreendedor de causas e discursos. Então é uma separação muito sutil, geralmente associada à remuneração ou exploração comercial de suas ideias. Mas até isso pode ser relativizado."



"O 'manifesto' é uma adaptação de um texto muito interessante do arquiteto australiano Rory Hyde, que propõe em seu campo de trabalho e pesquisa uma atuação pautada pelo empreendedorismo pessoal através de iniciativas 'não solicitadas' de projeto. Ou seja, você encontra o problema e/ou oportunidade no seu entorno e propõe uma solução ou ação projetual, sem necessariamente a existência de um cliente ou de uma demanda formal de trabalho. Estou trabalhando para consolidar o projeto mini Rio como uma oportunidade comercial independente e propositiva, por exemplo. Não sei se a ideia original de Mr. Hyde estabelecia algum tipo de distinção entre 'ativismo' e 'ação empreendedora', mas eu não faço isso nessa versão adaptada. Não sei se por 'ativismo' as pessoas entendem uma ação dissociada de remuneração ou retorno financeiro, mas isto não está lavrado em nenhuma parede de mármore ou nos 10 mandamentos do bom designer, rs. O designer-empreendedor é ativista por natureza, assim como o professor, assim como o cara que trabalha pelo salgadinho safado (um mau ativista), e também aquele que propõe algum tipo de reflexão sobre sua prática profissional..."

"Design é ativismo, e nesse sentido é muito importante refletirmos sobre as causas pelas quais nos colocamos em ação." Fabio Lopez



A intenção aqui é provocar o pensamento crítico de nossa atuação enquanto profissionais. No meu ponto de vista o profissional de Design tem acesso a conhecimentos importantes, e cabe a nós aplica-los da melhor forma possível.

Nossa atuação profissional é a forma como colocamos em prática todos os valores no qual acreditamos como ideais para a nossa vida e da nossa sociedade. Porque não sermos mais críticos e mais conscientes de nosso papel dentro do social?

Toda idéia tem uma intenção :) É disto que trato neste blog, buscar novos pontos de vista do mundo, das coisas, a partir das pessoas, novas abordagens sobre os antigos problemas e que estas sejam principalmente mais conscientes. Precisamos assumir a nossa responsabilidade quanto ao papel de cada um em relação ao seu projeto. Seja qual ele for! Afinal quem aqui já parou para pensar que ao mesmo tempo que criamos peças lindas de design também criamos resíduo? A responsabilidade ai é nossa, vamos assumir este papel!

Face a Book - ilustração de Fabio Lopez


Nada melhor para finalizar esta postagem com chave de ouro do que trazer uma frase de Fabio Lopez direto do site de um de seus jogos:

Faça das horas vagas um tempo nobre, dedicado ao exercício de questões pessoais e boas idéias. Sua profissão pode ter um papel fundamental na criação de uma comunidade mais engajada e consciente.

Torne visível o que te incomoda:
o design é a sua voz!

Curtiu as idéias de Fabio Lopez? Ele estará na DOCA no Rio de Janeiro, hoje, dia 29 de outubro de 2015, para falar do seu mais recente projeto Mini Rio, clique aqui para saber mais.

Você pode ver grande parte dos projetos de Fabio Lopez lá no seu Flickr e no seu Issuu e acompanhar as novidades do projeto Mini Rio pelo facebook do projeto

16.10.15

Abstrações junto com
o 'sapateiro' de plástico Edson Matsuo




“Vamos co-criar esta matéria?”

Assim foi meu primeiro contato com Edson Matsuo. Um criativo que me encantou com a forma como lida com sua própria imagem, história de vida e como valoriza sua equipe. Matsuo se denomina um ativista criativo (e não diretor) da Grendene. Ele e sua equipe são responsáveis por criações das diversas marcas da empresa, entre elas a Melissa. É uma daquelas raras pessoas que tem uma marca pessoal muito forte (com marcadores simbólicos na forma de sua cartola e óculos de armação redonda, ambos na cor preta) e é um profissional que transborda energia criativa: qualquer minuto com ele, mesmo em um bate papo rápido, é certeza de muito aprendizado.

por Marcelo Fiori e Karina Vaz




 Edson Matsuo por Airton Sato


Quando solicitei uma imagem que pudesse usar nesta postagem ele sugeriu que eu usasse uma imagem minha com sua cartola e óculos :), afinal todos somos uma misto de nossos encontros, um híbrido de experiências e nada melhor para representar este encontro que pretendo aqui “retratar” para vocês!


Esta é a forma mais visível para vocês captarem como este grande criativo pensa e trabalha, COM as pessoas: "PEOPLE FIRST". Também não existe melhor forma de expressar como fui impactada e inspirada por nosso bate papo do que usar sua cartola e óculos como uma representação do cruzamento de caminhos e percepções. Desta forma ele segue construindo a si próprio, com um olhar muito especial sempre voltado para as pessoas a sua volta e os entrelaçamentos de idéias e trajetórias. Esta construção de si com os outros é constante para Edson Matsuo, que atualiza sua imagem de perfil nas redes sociais sempre com imagens de amigos e família trajando seus simbólicos objetos.  Uma pessoa que marca, certamente!



Entrei no clima banzai com desenho mesmo :) 

Amigos e família de Matsuo

de Pedro Matsuo


Uma pessoa curiosa por natureza, Matsuo encontra em suas inquietudes as melhores formas de busca de novos pontos de vista, fazendo disto um estado mental que procura manter em si mesmo e "contaminar” sua equipe. Passo a palavra agora para o próprio Edson Matsuo. Aproveitem!



Sobre suas inspirações pessoais e sua trajetória.

“Eu nunca tive preocupação de saber o que eu fiz, sempre fui fazendo. O que eu já fiz, é passado. Então tenho que fazer melhor. Mas com o tempo, você precisa perceber qual é o seu padrão e a trajetória que você percorreu. A minha sempre foi movida pela curiosidade e uma necessidade de querer saber. “

“Eu queria saber coisas novas. Mas para conhecer o novo eu precisei correr atrás. Nasci no interior do Paraná, e usava o esporte para conhecer este “novo” através das viagens. Comecei no baseball, onde meu pai era técnico. Depois passei a jogar tênis de mesa, porque viajava mais. Fui campeão paranaense juvenil. Joguei em São Paulo pelo Palmeiras. Viajei o Brasil todo, também pelo Chile e Argentina, sempre através do esporte. Eu gostava do esporte, mas gostava mais ainda de viajar e conhecer gente nova.”

"Terceira fileira de baixo para cima. quarta pessoa contando da esquerda para a direita" Edson Matsuo quando jogava baseball.

"Contador do Juiz de Baseball do pai de Matsuo e técnico CAMPEÃO na foto do time infantil de Baseball de Maringá Paraná  (ele com uniforme atrás a direita e eu na primeira fileira, terceiro da esquerda para a direita)" Edson Matsuo


“Já naquela época, eu desenhava e fazia a minha raquete com o material e a madeira que eu escolhia. Eu mesmo colocava a borracha japonesa. Estudava a batida da raquete. Corria atrás da madeira de caixa de bacalhau e importados para isso, porque raquete importada era caríssima. Muitas vezes a 'viagem' está em você mesmo.”

"Na primeira fileira duas garotas e um menino, sou este menino." Edson Matsuo na época que jogava tênis de mesa


“Minha mãe era mais artista e foi a primeira a me dar uma régua T. O acesso ao novo sempre esteve presente na minha vida. Quando fui convidado a trabalhar na Grendene foi para trabalhar em tudo menos calçado, era para restabelecer o parque industrial que estava parado. Me forneceram acesso a livros importados, viagens e a informações, em uma época que não havia internet."

“Achei que ia ser preso, porque eu estava fazendo o que gostava e ainda ganhava para aquilo. Até hoje estou esperando ser preso, por que amo o que faço."

“O principal foi o acesso a informação e vivência das coisas, isso me deu esse padrão de inquietude, o gosto pela novidade. Respeitar o que você conquistou, mas olhar para frente e pensar o que você quer fazer agora, do novo. Procurar algo novo sempre, não importa de onde venha, e quanto mais fora do seu networking melhor ainda. Buscar novos campos do conhecimentos para ter novos insights. É muito rico o contato com pessoas de outras áreas do conhecimento, sair dos assuntos de sua zona de conforto porque geralmente os assuntos são variações do mesmo tema. Você precisa buscar o desconforto para ligar conhecimentos na busca pela inovação. Só em meios desconfortáveis você encontra a inovação.”

“As viagens também são formas de transição e de sair de nossa zona de conforto, conhecendo o novo. Novos lugares que surpreendem e trazem novas experiências. Traz a riqueza de te deixar desconfortável.”



Sobre a importância de se pensar com as pessoas e nas pessoas.

“Tudo o que fazemos tem pessoas no meio, e muitos acabam esquecendo disso. O calçado não é nada se ele não ‘anda’, se não tem as pessoas se expressando através dele com sua maneira de sentar, cruzar a perna e se portar. O calçado usado é a coisa mais bela que existe, é onde deixamos a nossa ‘digital’, como andamos e por onde passamos.”
 "Devemos sempre lembrar das pessoas. Antes eu escrevia ‘people first’ agora penso em ‘people engaged first’, porque o engajamento é super importante.”

“Para fazermos algo para alguém, você precisa fazer para você mesmo primeiro. Estudar e entender a si próprio: ‘Eu-novação’. Sair da superfície do conhecimento dos outros e buscar o conhecimento profundo de si mesmo.”

“Hoje vejo a necessidade do ‘design to serve’ pois design que não serve, não serve. Isso é muito mais de ‘feel’ do que de ‘think’, o design para servir. O tema ainda é novo para mim, mas esta ai a inquietude.”


Sobre seus projetos

Trabalhando a muitos anos para a mesma indústria vários projetos passaram por Edson Matsuo, mas para ele o próximo é sempre o maior e melhor desafio. Sua entrada na Grendene se deu por causa do projeto do chinelo Rider, que alavancou a empresa e resgatou a Melissa, além de todo o negócio. Hoje é uma empresa de 26 mil funcionários, de capital aberto. Há 14 anos a maior exportadora de calçados do Brasil.

O maior orgulho de Matsuo é a equipe da qual ele faz parte, que conta com 200 pessoas trabalhando juntas. Mas “o próximo projeto tem que ser o melhor pois temos sempre que buscar novos patamares para alcançar, não para os outros, mas para nós mesmos.”

Matsuo não gosta do termo direção criativa, porque acredita que a direção é construída com as pessoas através da química, da empatia e da conexão que você tem com as pessoas. Ele se auto intitula um dos “ativistas criativos” da equipe.

Um líder criativo que desenvolve sua equipe/pessoas/conexão na intenção de que cada um se inspire no que eles próprios vivenciaram, uma inspiração que parte de dentro de cada um, não é imposta. Ele não quer mudar as pessoas, não quer criar necessidades, mas dar o gatilho para algo que as pessoas já tem:

“O grande desafio é trazer a tona o que as pessoas tem de melhor. Para isto você precisa conhecer o outro. Saber o que brilha os olhos. Inspirar é isso! Esta é a mágica que envolve a inspiração."

“Inspiração não é querer pelo outro, não é impor seus ideais ao outro. Devemos inspirar as pessoas, os colegas, não apenas pelos produtos. A mágica está no trabalho em equipe. Infelizmente tivemos uma escola, tanto na arquitetura quanto no design, mais voltada ao trabalho egocêntrico e trabalho autoral do que para o trabalho em equipe, colaborativo. Defendo Design para o estudo fundamental. Para as crianças aprenderem a solucionar problemas. Pensar e executar projetos através do empreendedorismo.”

A postura de Edson Matsuo como responsável pela área de design de uma indústria é de que o máximo de pessoas tenham contato com o produto, para que o mesmo viabilize o negócio da empresa. Um design acessível é o principal para ele, e um bom indicativo é a quantidade de pessoas que usam o produto, não importa se as pessoas sabem ou não quem fez o produto: “Fazer as pessoas sorrirem! Não só a pessoa que usa, mas também a que vende. Toda a cadeia de valor deve estar contente com o produto, inclusive a comunidade que a gente envolve, a comunidade da própria fábrica. É mais sistêmico do que simplesmente um produto.”

Ver um produto que foi feito aqui no Brasil sendo usado na China (220 milhões de pares por ano são feitos na Grendene) é para ele um grande marcador de sucesso.



Sobre o projeto Melissa One by One

Para quem não conhece, Edson Matsuo e sua equipe são responsáveis pela criação de uma nova experiência no jeito de comprar, vestir e usar calçados. Na verdade um novo jeito de pensar calçados. Esta é uma boa descrição do projeto Melissa One by One, que significa “um por um”.




“O projeto da Melissa One by One existe a 6 anos, mas agora foi identificada uma oportunidade de lançamento. Já estava criado e testado. Sabia-se que dava certo, mas tudo tem seu momento. Este é um bom exemplo de que não podemos desistir dos projetos, mas também não podemos forçar. É preciso perceber os sinais do mercado, inclusive a aderência de toda a empresa e do momento certo de lançar um produto. Pois este produto muda toda a forma de pensar o uso de um calçado, incluindo a forma de produzir e vender, pois é vendido apenas um pé e não o par de sapatilhas."

A inovação do projeto está no pensamento modular e interativo, que permite calçar e andar de maneira confortável, tanto com o pé direito, quanto com o esquerdo usando o mesmo modelo. Além de um novo jeito de combinar e comprar. Sendo feita de MELFLEX, formulação exclusiva de polímero (PVC) que garante a eficiência das geometrias do projeto de design, flexibilidade, conforto, reciclabilidade e ainda leva a marca sensorial do “Aroma Melissa” como os outros modelos, mas este projeto traz um novo modelo de pensamento como sua inovação, circular, modular, personalizado e acessível onde cada consumidor constrói a sua própria e única coleção.




A forma de comprar e vender também é nova, pois é vendido um pé da sapatilha, e não em pares, e é exatamente o que permite a personalização e modularidade do projeto que conta com nove modelos, vendidos separadamente. O resultado são 81 possibilidades de combinações diferentes para compor um par de Melissa.

Um projeto “fora da caixa” verdadeiramente, pois quebra padrões de percepção e comportamento de um segmento inteiro de produtos. A modularidade do pé com desenho único para pé esquerdo e direito vai muito além da questão estética, mas também está nela quando se tem lados com estampas e cores diferentes na mesma sapatilha, pois quando se usa no outro pé, a pessoa tem uma percepção completamente diferente do mesmo objeto.

“Algumas referências de calçados com desenho único para ambos os pés são os sapatos chineses de dedo, por exemplo, que também tem um principio minimalista, além das alpargatas ou espadrilhas gaúchas, mas fazer uma sapatilha minimalista é mais difícil” compartilha Matsuo. “Como todo produto novo a própria empresa e equipe ainda está aprendendo com ele . A inspiração é um trabalho conjunto”

“No meu ponto de vista, nenhum produto nasce inovador, quem o torna inovador são as pessoas. O produto é apenas um candidato a inovação, o que mede a inovação é a quantidade de pessoas que aderem e adoram o produto, que divulgam por conta própria e recomendam para outros. A inovação é reconhecida no mercado e não dentro da indústria. Acontece na recepção deste produto pelo mercado consumidor. Na emissão é ego, na recepção é inovação.”

A inovação, aqui, está na quebra do padrão existente e na mudança do modelo de pensamento: da fabricação à venda, uso (trocar de lado, lados com cores diferentes) e acessibilidade, pois pode-se comprar um pé de cada tamanho por exemplo, ou comprar apenas um pé, respeitando as individualidades de cada pessoa.

O design inovador do Melissa One by One foi homenageado no prêmio Brasil Design Award 2014, pelo investimento em inovação e design no ramo calçadista, além do Prêmio BID - Bienal Iberoamericana de Design 2014 na categoria Moda e ainda trouxe à marca gaúcha de calçados a premiação, na categoria produto, do iF Design Award 2015. Matsuo e sua equipe da Grendene também receberam prêmios de Arquitetura nos projetos da Casa Ipanema e Galeria Melissa Nova York.

“O grande prêmio é vender muitos pares e ajudar uma empresa como a Grendene a sempre se desenvolver.” Edson Matsuo



Sobre referências criativas que admira

Matsuo nos traz nomes que pesquisam e falam sobre inovação em negócios para termos novos pontos de vista:

“Uma pessoa que eu gosto muito é o John Maeda que pesquisou no MIT muito tempo sobre simplicidade”

Maeda e suas leis da simplicidade mostram como encontrar maneiras das pessoas simplificarem a sua vida em face da crescente complexidade. Dá para conferir a palestra dele clicando aqui 

“Gosto também do Simon Sinek, que está ligado a inspiração voltada as pessoas mas, ao invés de seu ‘Golden circle’, defendo o ‘Diamond circle’ que trata o ‘com quem’ antes, e o ‘porquê’ depois. Dependendo do COM QUEM o POR QUÊ tem outro significado.”
O 'diamond circle' de Edson Matsuo é uma releitura do 'golden circle' de Simon Sinek, onde devemos pensar primeiro COM QUEM, afinal dependendo do "com quem" o PORQUÊ tem outro significado.



“Tem também os conceitos da Youngme Moon que é uma coreana que fala sobre o diferente”

Youngme Moon da Harvard Business School mostra neste vídeo abaixo uma introdução de seu livro ‘Diferente, quando a exceção dita a regra’ no qual traz o sentido de diferenciação de negócio.






Inspirações e considerações finais de Edson Matsuo

“Você e eu temos já dentro de nós a semente de tudo que seremos e o que precisamos são os gatilhos , portanto desconfio quando ouço o papo de ‘querer mudar alguém e ser mudado por alguém’. O conceito de mudar alguém é ainda da cultura autoritária do marketing de criar necessidades. TRANFORMAR respeita o que você já é. Transformado de estudante em um eterno aluno. A vida que te forma.”

“Se você conseguir ser transformado de estudante em um eterno aluno já valeu a sua faculdade. Brinco que fui deformado e que estou me formando ainda, do jeito que eu quero, conforme sou e vivencio. Porque a faculdade não consegue personalizar, a vida que te dá isso. Este é o contexto da atuação do designer. “

“Isto tudo tem a ver com o ‘design para servir’ que defendo. ‘Design que não serve, não serve’, servir a próprios, a você mesmo, servir ao colega que está ao lado, servir para quem vai usar. Uma visão mais abrangente não só do design como projeto, mas acerca do que você quer da vida e da sua atuação. Esta amplitude tem muito a ver com sua percepção do quanto você quer ficar no conteúdo ou no continente. Continente é maior do que conteúdo.”

“Inovação vira balela se não começamos conosco primeiro. Quem pretende fazer algo diferente que emocione alguém, primeiro precisa se conhecer. Se você não sabe como você se emociona é mais difícil. O design no mínimo precisa conhecer e entender o ser humano.”
“Se conhecer antes. Valorizar mais o ser. Desconfie de uma grande boa ideia, se ela não inspira as outras pessoas.”


Edson Matsuo palestrando


Vocês vão concordar comigo que a abordagem de Edson Matsuo é extremamente inspiradora e a partir desta, sigo os seus conselhos deixando algumas perguntas em aberto, transformando este papo em algo mais colaborativo porque estamos sempre em transformação e podemos rever tudo isto que foi falado no futuro

A idéia deste bate papo é trazer a inquietude para você que lê. Precisamos de gatilhos para elaborar nossas próprias idéias, espaços em branco para a nossa própria inspiração...

Não tem problema deixar espaços em branco para que vocês tirem suas conclusões. O importante é que compartilhemos o conhecimento e que cada um transforme e o elabore para si. Afinal, nada é completamente previsto e tudo tem vida própria. Precisamos ir trabalhando e aceitando o que tem por vir, completamente inspirados pelas idéias de Edson Matsuo!

É disto que trata este bate papo e este blog, sempre com reticências em meio a escrita para proporcionar os espaços de intervenção e apropriação do pensamento de vocês :)

Espero que vocês também tenham sentido um pouco da energia criativa inspiradora deste excelente bate papo, que continua dentro de cada um de nós, providos pelos “espaços em branco” que nos permitem intervir com nossas próprias interpretações!

3.1.15

Nossa Seleção de Design Podcasts



Que tal fazer uma boa coletânea dos melhores podcast em Design do Brasil e de outras partes do mundo? Pois aqui está. Perfeito para ocupar o tempo de viagem e manter-se atualizado mesmo descansando. Conteúdos da melhor qualidade!

Entraram nesta seleção os podcast (brasileiros e estrangeiros) que mantem atualização frequente até a data desta postagem, e que já tem boa repercussão entre os profissionais de Design (o que não impede que vocês indiquem nos comentários outros que vocês consideram bons também, ok?)


Anticast + facebook + twitter

Clichecast + facebook da revista Cliche

Fala Freela + facebook + twitter

Design Matters + siteFacebook + site da Debbie Millman

99% Invisible + facebook

On the Grid

Tedtalks

Iterate + twitter


Quer conhecer mais opções? Tem listas gringas aqui com outras opções como os 10 melhores podcasts em Design Gráfico e outra com outros 25 melhores podcasts em web design. Assim vocês mesmo fazem sua lista de preferidos :)

Prefere ler um bom livro? Temos algumas sugestões para você também, clique aqui.

..............ATUALIZAÇÃO...........................

Visual+mente, um podcast spin-off do AntiCast abordando o universo do design, principalmente memória, pesquisa e prática + facebook 

20.11.14

Women: Hall of Femmes do Design

Ruth Ansel

Trago aqui uma contribuição de Adélia Borges a nossa seção Mulheres do Design: o site Hall of Femmes é um projeto iniciado em 2009 que traz o trabalho de mulheres de destaque nas áreas de direção de arte e design.


Tomoko Miho

O site Hall of Femmes inclui palestras, exposições, entrevistas, podcasts e a publicação de uma série de livros, cada livro retrata uma designer e seu trabalho por meio de entrevistas em profundidade e imagens inéditas.

O projeto começou como um desejo pessoal de duas designers em encontrar modelos femininos em design gráfico, um campo em que a contribuição das mulheres para o desenvolvimento da profissão é pouco documentada. Angela e Samira viajaram várias vezes para Nova York para se encontrar com algumas das gigantes do sexo feminino do mundo do design. As conversas giram em torno do trabalho e das oportunidades de carreira, sobre orientação e como é ser uma mulher no mundo do design. Essas conversas foram transformadas em uma série de livros. O primeiro livro, sobre Ruth Ansel, publicado em 2010, foi seguido por sete livros adicionais: Carin Goldberg (2010), Lillian Bassman (2010) e Paula Scher (2011), Tomoko Miho (2013), Janet Froelich (2013), Lella Vignelli, (2013) e Bloggboken (2013, em sueco).

Em 2013, Hall of Femmes produziu uma conferência de design de dois dias, com palestrantes de destaque do mundo das artes visuais, design, comunicação e moda, realizada no Moderna Museet, em Estocolmo.

Paula Scher


Outro projeto de mesma intenção é o site Women of Graphic Design , dica de Julia D'Alkmin: projeto focado em expor as contribuições das mulheres em design gráfico e explorar as questões de igualdade de gênero na educação fornecida por instituições de design.





Dá para acompanhar ambos projeto pelo facebook curtindo Hall of Femmes e Women of Graphic Design :)

11.11.14

Una cosa mentale para um mundo complexo


Trago aqui uma atualização da entrevista anteriormente publicada de Rafael Cardoso aqui no AmeDesign. Afinal, considero este debate importante e busco tratar da democratização e da desmaterialização do design em algumas postagens por aqui, mesmo que de forma "amena" :)

Na entrevista Una cosa mentale para a revista Continuum Itaú Cultural (edição de maio de 2008 mas com debate completamente atual) o autor aponta a importância das práticas sustentáveis para a criação de objetos e nos lembra a importância do design, sob um novo ponto de vista:

“O design tende a se afastar da materialidade e caminhar em direção à experiência, ao uso e à emoção. Cada vez mais os objetos de design serão imateriais.” Rafael Cardoso, 2008.


Assista ao vídeo com trechos da entrevista "Una cosa mentale" abaixo e confira a entrevista citada clicando aqui.





Rafael Cardoso trata sobre o futuro do desenho industrial, que vai além do formato, em seu livro Design para um mundo complexo e não há melhor forma de descrever de onde vem todo este debate do que trazer o trecho descritivo da própria editora acerca do título:

"Design para um mundo complexo atualiza a discussão proposta por Design para o mundo real, publicado há quarenta anos, em 1971. Seu autor, o designer norte-americano Victor Papanek, alertava para a perda de sentido do design de matriz modernista crescente e perversamente estetizado em face de um mundo assolado pela miséria, violência e degradação, e conclamava os designers a saírem de seu universo autoreferente para projetarem soluções para o mundo real."






Aproveitem!

28.8.14

Sobre o processo criativo de Isidro Ferrer





Acho interessante trazer este relato em video de Isidro Ferrer acerca da forma como trabalha pelas questões que nos fazem pensar/repensar nossas rotinas criativas. Isidro acredita que morar (e trabalhar) em local mais isolado em contato com a natureza ajuda a relação com o trabalho e gosta de ser seletivo acerca dos projetos que escolhe trabalhar.

Sobre o trecho acima tenho dois comentários :)

O primeiro é que sem wi-fi ou acesso a internet nos concentramos melhor no trabalho, principalmente se desejamos mergulhar em um processo criativo imersivo ou de construção de pensamento, no caso dos trabalhos teóricos. Fica aqui a questão: porque você acha que seu trabalho rende melhor durante a noite? Porque é o horário que somos menos interrompidos. Para tem problema com redes sociais, este é o horário quando as redes sociais são menos atualizadas também.

Segundo, concordo com Isidro que quando temos a possibilidade de escolher nossos projetos fazemos cada um deles com mais gosto, mas o que não inviabiliza transformarmos qualquer pequeno projeto em um grande projeto em termos de qualidade. Sempre que falo neste assunto trago o projeto Chiquita para ilustrar o que quero dizer. Esse é um dos motivos que muitos escolhem se dedicar a um projeto pessoal, experimental ou não pode ser uma válvula de escape maravilhosa para a criatividade.

Neste video ele conta que gosta de trabalhar em territórios diferentes de atuação, não segue nenhuma metodologia criativa em particular e considera isto importante para que seu trabalho seja interessante e inspirador. Claro que esta é uma experiência particular dele, mas serve para pelo menos pensarmos em nossos próprios métodos de trabalhos. Assistam, inspirem-se e aproveitem!

23.10.13

Entendendo a sustentabilidade em 7 questões



Super dica do Core 77 para os designers que andam buscando fazer projeto mais sustentáveis: uma série de vídeos (de 2011) do site Design Accord com 7 dicas de cada profissional de diferentes setores relacionados a desenvolvimento sustentável.

Para quem ainda não conhece ai vai a explicação da revista abcDesign “o Design Accord é uma coalisão de designers, educadores e empresários trabalhando juntos para criar um ambiente de impactos sociais positivos. Quem adota o Design Accord se compromete a cinco guidelines para integrar, de forma individual e coletiva, sustentabilidade ao design. O Designers Accord provê uma plataforma colaborativa com ações on e offline para que os membros tenha acesso a uma comunidade de colegas para dividir metodologias, recursos e experiências em torno de questões sociais, ambientais e de design”.


Confira cada um dos 17 episódios (em inglês):

Fiona Bennie on Future Scenarios -
Cenários Futuros

Janine Benyus on Biomimicry -
Biomimética

Allan Chochinov on the Seven Presumptions of Design -
7 Presunções do Projeto de Design

Dawn Danby on Life-Cycle Thinking -
Pensamento do Ciclo de Vida

Andrew Dent on Materials -
Materiais

Gil Friend on Sustainable Business -
Negócio Sustentável

Lisa Gansky on Sharing -
Compartilhamento

Chris Hacker on the Design Process -
Processo de Design

Wendy Jedlička's Seven Handy Tips to Help You Change the World -
7 Dicas para te ajudar a mudar o mundo

Hunter Lovins Makes the Business Case for Sustainability -
Um case de negócio para a sustentabilidade

William McDonough on Cradle to Cradle Design -
Design do Berço ao Berço

Dara O'Rourke on Seven Design Principles for Sustainable Design -
7 Princípios do Design Sustentável

John Peterson on Pro Bono Design -
Design "para o bem"

Nathan Shedroff Explains Systems Thinking -
Explicando os Sistemas de pensamento

John Thackara on Energy -
Energia

Alissa Walker on Walking the Walk -
Andar a pé

Adam Werbach on Cultural Sustainability -
Sustentabilidade Cultural 

via

3.10.13

Não tenhamos certezas



Direto do projeto Good Life Project, selecionei mais uma entrevista com Milton Glaser (de quem já falamos por aqui antes :) que sempre tem excelentes lições para todos e é um dos nomes do Design admirados por Evelyn Grumach e Gilberto Strunck, além de muitos de nós, é claro...


Algumas frases ditas que valem ser anotadas:

“When you do something that’s guaranteed to succeed, you’re closing the door to the possibility of discovery.”

“Certainty is a closing of the mind.”

Não preciso nem dizer que vale a pena assistir com atenção, caneta e papel na mão... e rever sempre que necessário :) Para quem tiver dificuldade com o inglês basta colocar legendas em português. Aproveitem!

23.7.13

Design e Antropologia:
Bate papo com Zoy Anastassakis



Este bate-papo aqui é especial por vários motivos, mas o melhor de todos é porque estamos trazendo um assunto que pode ser novidade para muitos de vocês. Vamos falar de design e antropologia. Isso mesmo, tem tudo haver :) Se você acha legal todo esse papo de pensamento do Design vai descobrir mais ainda e ninguém melhor para falar sobre o assunto do que a Zoy Anastassakis, referência quando se fala na interação entre as áreas do conhecimento do Design e da Antropologia. Pois é, sempre que conversava com alguém sobre o tema ouvia aquele comentário ou pergunta “Você conhece a Zoy? Você precisa conversar com ela.” Pois agora compartilho com cada um de vocês este bate-papo e todos passamos a conhecê-la juntos! Aproveitem este momento especial!

Um pequeno histórico da nossa entrevistada, que aliás vai estar no Ndesign Salvador 2013 - Designer (ESDI/UERJ). Mestre e Doutora em antropologia (PPGAS-Museu Nacional/UFRJ). Há vinte anos, atua como designer gráfica, cenógrafa, diretora de arte, pesquisadora/etnógrafa (Coca-Cola, Johnson & Johnson, Mapfre, Nokia, Omnicom, Polidesign, Renault, Tim etc) e consultora de design estratégico para inovação (MJV Tecnologia e Inovação, CRIA Global). Atualmente, é professora adjunta no Departamento de Artes e Design da PUC-Rio e na Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI/UERJ), onde coordena o Laboratório de Design e Antropologia (projeto de pesquisa, parceria com o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/UFRJ) e o Observatório Etnográfico de Design e Inovação Social no Rio de Janeiro (projeto de extensão). É professora convidada da Especialização em Design Estratégico da UNISINOS. Ufa... agora vamos ao que interessa...



1 - Quando e como surgiu seu interesse pelo Design? Como foram suas primeiras experiências na área?

Zoy - Meu pai e minha mãe tinham um escritório de arquitetura e urbanismo, sendo ele arquiteto/urbanismo e ela socióloga. Então, passei minha infância em meio a gente fazendo projeto, desenhando, visitando canteiros de obra. Quando criança, ficava horas admirando as embalagens dos produtos na mesa do café da manhã, na despensa, no supermercado. Cheguei até a colecionar embalagens de remédio, que achava lindas... Fazia papéis de carta, cartões postais, tudo desenhado, e trocava com minhas amigas por papéis de carta que elas compravam na papelaria.

Na época do vestibular, estava em dúvida entre lingüística e design, e, no último momento, acabei me decidindo pela segunda opção, não sei bem por quê. Prestei vestibular para a ESDI/UERJ e para a UFRJ. Passei nas duas, e escolhi a ESDI.

Logo no primeiro ano de faculdade, comecei a estagiar em uma produtora de ‘multimídia’, o que envolvia design gráfico, produção de vídeo e videografismo. Em seguida, fui trabalhar como assistente do artista plástico Jorge Barrão, na área de videografismo do programa Brasil Legal, apresentado pela Regina Casé, na TV Globo. Ali, viajei pelo país todo, comprando objetos e capturando imagens para montar as vinhetas do programa. Nestas duas primeiras experiências de trabalho, percebi a amplitude das possibilidades de atuação a partir do design. E, de forma indireta, entrei em contato também com a antropologia, uma vez que o Brasil Legal era fruto da parceria da Regina e de sua equipe com o antropólogo Hermano Vianna, que se formou no PPGAS-Museu Nacional/UFRJ, onde anos depois acabei fazendo mestrado e doutorado.




2- Quais são suas maiores influências no Design? Quais nomes do Design você admira?

Zoy - Antes de tudo, a influência é esse ‘design’ ou ‘comunicação visual que está no dia-a-dia, as letras na cidade, as cores, os espaços, a organização dos volumes, as formas, não só as construídas, mas a fluidez com que as ‘coisas’ se configuram em torno de nós. Isso é também o que nos forma, instigando nossa sensibilidade, nossa percepção de mundo. Só mais tarde vim a entender que o design, como disciplina, lidava sobretudo com isso.

Mas, se pensarmos no design como campo profissional específico, a maior influência, porque das primeiras e mais marcantes, foi a professora da ESDI, Silvia Steinberg, que me ensinou a cultivar, de forma consciente, uma sensibilidade, sempre crítica, para com o que vejo e onde estou. Depois dela, devo mencionar um outro professor na ESDI, João de Souza Leite, que me apresentou o livro “E Triunfo?”, compilação de textos do Aloisio Magalhães ‘gestor de política cultural’. De um modo muito profundo, a leitura desse livro, ainda na faculdade, me chamou atenção para a incontornável vinculação entre a prática profissional de design e os aspectos ‘sócio-culturais’.

No design gráfico, uma primeira grande influência no meu próprio trabalho, era o movimento punk do fim dos anos 1970, que de alguma forma se conecta ao dadaísmo, e à vanguarda russa do início do século XX.

Os trabalhos do Rogério Duarte também me impressionaram profundamente. Nos anos 1990, não havia como não ser fã do David Carson, e da sua revista Ray Gun. Nessa época, eu era vidrada em revistas e fanzines. Admiro também o trabalho do Jonathan Ive, na Apple, a Hella Jongerius e seu lindo trabalho com cerâmica, a marca japonesa Muji e a finlandesa Marimekko. Também sou fã do trabalho do Tonho (Quinta-Feira), dos jogos ‘políticos’ do Fabio Lopez, do Jum Nakao e do Ronaldo Fraga, e de toda a experimentação da galera da Matéria Brasil.

Me interessa hoje tudo o que acontece na Dinamarca, em termos de aproximação entre design e antropologia, e, aqui no Brasil, nessa área, admiro muito o trabalho desenvolvido no Maranhão, pela Raquel Noronha, também designer e antropóloga, bem como o trabalho da Fernanda Martins, no Pará.

Mais do que tudo, sempre me encanta acompanhar o desenvolvimento dos trabalhos dos estudantes de design, e acho que temos hoje uma ótima geração de novos designers, que não só fazem coisas lindas, mas que tem experimentado novos modos de fazer design, de alguma forma reinventando o próprio mercado. Esse é um movimento que me interessa e que busco acompanhar, de perto.





3 - Conte um pouco sobre a sua trajetória profissional e o que a levou a especialização em Antropologia.

Zoy - Depois do Brasil Legal, passei a trabalhar com design gráfico e cenografia/direção de arte, nas áreas de música, publicidade, cinema, teatro e TV. Fiz muitas capas de disco, primeiro para meus amigos, que em sua grande maioria eram músicos, depois para outros artistas mais ‘estabelecidos’. Trabalhava com meu marido, que é musico e artista plástico, e com meu irmão, Philippe, designer como eu.

Terminei me cansando do pique tão intenso do trabalho com cenografia, e, nos deparamos com a crise da indústria fonográfica. Fiquei saturada também de trabalhar atendendo a ‘clientes’ e resolvi voltar a estudar.

Foi a Silvia Steinberg que me sugeriu a antropologia, e como eu tinha duas amigas fazendo mestrado no Museu Nacional, fui assistir a uma aula do Gilberto Velho e resolvi fazer a prova para o mestrado. Estudando sobre cultura material e políticas de patrimônio cultural, me deparei com a menção a Aloisio Magalhães. Foi em torno de seu trabalho de pesquisa e ação em política de patrimônio e cultura que organizei então minhas pesquisas de mestrado e doutorado, tentando entender como o design se associa às questões de cultura e sociedade.

Ao mesmo tempo, comecei a trabalhar com pesquisa, seja em arquivos, como no Paço Imperial, ou em uma pesquisa coordenada pelo meu orientador, Luiz Fernando Dias Duarte, seja como etnógrafa, em projetos de P&D, para empresas como Nokia, Johnson & Johnson, Nestlé, Coca-Cola, entre outras. Por conta desse tipo de trabalho, terminei por me aproximar de pessoas ligadas ao Politécnico de Milão, entrando em contato com a ideia de design estratégico. Em seguida, trabalhei por algum tempo como coordenadora de projetos de design para inovação em duas consultorias, MJV Tecnologia e Inovação e CRIA Global, onde aprendi imensamente.

Terminado o doutorado, decidi concentrar minha atuação em ensino e pesquisa, e hoje sou professora adjunta do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio e da ESDI/UERJ, onde coordeno o Laboratório de Design e Antropologia.





4 - Como você define essa interface entre Antropologia e Design e como o mercado (institucional e acadêmico) percebe esta nova área de estudo?

Zoy - Historicamente, observando a partir do ponto de vista do design, essa aproximação mais sistemática com a antropologia tem um lastro, que remonta pelo menos aos diálogos estabelecidos na área da ergonomia, entre os anos 1960 e 1970, bem como por toda a discussão sobre design e cultura, que explode ainda no final dos anos 1960, se ampliando ao longo da década seguinte. Mas esse movimento ganha novos contornos no início da década de 1980, com a contratação de antropólogos por empresas de design, o que segue acontecendo até hoje.

Daí em diante, há uma crescente apropriação da antropologia pelo design e, no meio disso, algo que me preocupa, que é uma instrumentalização da antropologia, entendida como ‘ferramenta’ para uma prática de projeto ‘centrada’ no ‘usuário’ ou, no melhor dos casos, no ‘ser humano’, formulações das quais tento sempre me desvencilhar. Até porque fazer projeto não é abrir uma caixa de ferramentas e a antropologia não é um simples ‘procedimento’ (de ‘tipo’ etnográfico) para acessar a alteridade.

Nesse sentido, tanto o mercado quanto a academia vem fazendo leituras muito operativas, e por vezes até comprometedoras, das possibilidades de interação entre design e antropologia, seja em termos dos resultados obtidos e mesmo em termos éticos.

Meu esforço, a partir da universidade, tem sido exatamente no sentido de explorar outras possibilidades de conjugação entre design e antropologia, de forma menos operativa e predatória, o que envolve perceber, através da prática, de que modos as duas áreas podem contribuir, uma em relação à outra.

Buscando explorar essas outras possíveis dimensões de intercâmbio, encontro rendimento nas proposições mais recentes do antropólogo Tim Ingold, e também na vertente dinamarquesa da área hoje já nomeada de ‘design anthropology’, que se expressa de forma mais interessante, a meu ver, no trabalho da Wendy Gunn, que, não por acaso, é ex-aluna e colaboradora do Ingold. Eles apontam inclusive para um outro lado da moeda, a saber, que se o design ‘tem a ganhar’ com uma aproximação com o antropologia, podemos pensar também de que modo a antropologia pode se deixar transformar por uma aproximação com o design.






5 - Qual conselho você daria aos interessados em estudar Antropologia associada ao Design? Quais seriam as leituras básicas das ciências sociais?

Conselho é difícil, né? Pra qualquer estudante, acho que o principal é ter curiosidade e espírito crítico. Com isso, é fácil ir buscando caminhos de aproximação com os temas que nos interessam. Mais considero que devemos sempre ter cuidado com as generalizações apressadas, e com essa ânsia que temos em sistematizar, organizar em caixinhas as coisas. Porque, como diz o Tim Ingold (em artigo publicado pela revista Horizontes Antropológicos, em 2012), a vida está sempre em aberto, e, assim, ela não apenas se recusa em ser contida: ela transborda.



Lendo seus textos "A antropologia do design: observações sobre as apropriações da prática antropológica pelo design hoje" e "Design e antropologia: desafios em busca de um diálogo promissor" temos uma boa referência de autores advindos da área do Design que podem auxiliar alguns estudos. Quais leituras ou autores, que unem as áreas da Antropologia e Design, seriam essenciais nesta nova área do pensamento do Design?


Como principais leituras para quem queira se aproximar do tema, sugiro toda a produção recente do Tim Ingold, e também os livros “Design Anthropology”, organizado pela Alison Clarke, em 2011, e “Design and Anthropology”, com organização de Wendy Gunn e Jared Donovan (2012). Em 2013, sai ainda uma segunda publicação da Gunn sobre o tema. Através desses livros, que são compilações de artigos, pode-se entrar em contato com outros autores que tem envolvimento direto com a área.

Em 2012, na Reunião Brasileira de Antropologia, em São Paulo, no P&D Design, em São Luiz do Maranhão, e no Encontro da Rede Latina de Design, em Belo Horizonte, apresentei trabalhos sobre o tema, todos disponíveis nos anais desses congressos.






6 – Onde seria, ou qual seria o caminho, adequado para a busca do conhecimento da antropologia para o designer que deseja se enveredar pelas ciências sociais como forma de aprofundamento de seu conhecimento? Pode nos dar referências de onde estudar (no Brasil e fora dele) e sites relevantes para os interessados em Antropologia do Design?

Zoy - Há alguns mestrados em ‘design anthropology’ ou que, com outros títulos, exploram as possibilidades de pesquisa e prática profissional entre design e antropologia. Destacam-se aí o centro de pesquisa “SPIRE”, da Universidade do Sul da Dinamarca, bem como os cursos de Swinburne, na Austrália, e de Aberdeen, na Escócia. Há outros cursos em Dundee, também na Escócia, na Universidade College London, Inglaterra, na Universidade do Norte do Texas e em Harvard, nos EUA. As ênfases são bastante distintas, e ano passado comecei a pesquisar os diversos modos com que a categoria ‘design anthropology’ vem sendo acionada nesses ambientes acadêmicos, porque quero entender melhor como essa história toda se desenrola, em meio a esse movimento de instituição de uma formação acadêmico-profissional na área.

De minha parte, venho já há algum tempo ensinando antropologia em cursos de design:

1) na Especialização em Design Estratégico da UNISINOS, no Rio Grande do Sul, onde dou aulas e oficinas sobre o tema, desde 2010.

2) na ESDI, a nível de pós-graduação, ministrei este semestre um curso chamado “Diálogos interdisciplinares entre design e antropologia”. Na graduação, tenho experimentado aplicar algumas das propostas do Ingold em sala de aula, fazendo exercícios que envolvem pesquisa de campo, exercícios imaginativos e prospectivos e representação visual. Na ESDI, acontece também um grupo de leitura sobre o tema.

3) na graduação em design da PUC, a partir do próximo semestre, ofereço uma eletiva de design e antropologia. A propósito, o curso da PUC tem uma tradição de trinta anos de prática de projeto construída a partir de experiências em campo. Lá, além da eletiva, acompanho os alunos da disciplina de projeto I em suas idas a campo, apresentando referências a partir das quais eles possam desenvolver, de forma mais consciente, o trabalho no campo.

4) meus orientandos de graduação, seja na ESDI ou na PUC-Rio, e de pós-graduação (PPDESDI), tem explorado de forma bastante intensa as interações entre design e antropologia. Afinal, no desenvolvimento de projetos de conclusão da graduação e de dissertações de mestrado, contamos com mais tempo, a partir de onde experimentar, com maior profundidade, algumas combinações entre os modos de prática e de produção de conhecimento do design e da antropologia.

Para dar seguimento a essas experimentações, foi criado na ESDI o Laboratório de Design e Antropologia, parceria minha com a designer Barbara Szaniecki, da ESDI, e a antropóloga Karina Kuschnir, do IFCS/UFRJ. Assim, espero contribuir de forma mais sistemática para as investigações na interface entre design e antropologia.

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DESIGN E ANTROPOLOGIA: considerações teóricas e experimentações práticas em diálogo com a perspectiva do antropólogo Tim Ingold - artigo da Zoy Anastassakis nos Anais do 11º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design de 2014