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16.10.15

Abstrações junto com
o 'sapateiro' de plástico Edson Matsuo




“Vamos co-criar esta matéria?”

Assim foi meu primeiro contato com Edson Matsuo. Um criativo que me encantou com a forma como lida com sua própria imagem, história de vida e como valoriza sua equipe. Matsuo se denomina um ativista criativo (e não diretor) da Grendene. Ele e sua equipe são responsáveis por criações das diversas marcas da empresa, entre elas a Melissa. É uma daquelas raras pessoas que tem uma marca pessoal muito forte (com marcadores simbólicos na forma de sua cartola e óculos de armação redonda, ambos na cor preta) e é um profissional que transborda energia criativa: qualquer minuto com ele, mesmo em um bate papo rápido, é certeza de muito aprendizado.

por Marcelo Fiori e Karina Vaz




 Edson Matsuo por Airton Sato


Quando solicitei uma imagem que pudesse usar nesta postagem ele sugeriu que eu usasse uma imagem minha com sua cartola e óculos :), afinal todos somos uma misto de nossos encontros, um híbrido de experiências e nada melhor para representar este encontro que pretendo aqui “retratar” para vocês!


Esta é a forma mais visível para vocês captarem como este grande criativo pensa e trabalha, COM as pessoas: "PEOPLE FIRST". Também não existe melhor forma de expressar como fui impactada e inspirada por nosso bate papo do que usar sua cartola e óculos como uma representação do cruzamento de caminhos e percepções. Desta forma ele segue construindo a si próprio, com um olhar muito especial sempre voltado para as pessoas a sua volta e os entrelaçamentos de idéias e trajetórias. Esta construção de si com os outros é constante para Edson Matsuo, que atualiza sua imagem de perfil nas redes sociais sempre com imagens de amigos e família trajando seus simbólicos objetos.  Uma pessoa que marca, certamente!



Entrei no clima banzai com desenho mesmo :) 

Amigos e família de Matsuo

de Pedro Matsuo


Uma pessoa curiosa por natureza, Matsuo encontra em suas inquietudes as melhores formas de busca de novos pontos de vista, fazendo disto um estado mental que procura manter em si mesmo e "contaminar” sua equipe. Passo a palavra agora para o próprio Edson Matsuo. Aproveitem!



Sobre suas inspirações pessoais e sua trajetória.

“Eu nunca tive preocupação de saber o que eu fiz, sempre fui fazendo. O que eu já fiz, é passado. Então tenho que fazer melhor. Mas com o tempo, você precisa perceber qual é o seu padrão e a trajetória que você percorreu. A minha sempre foi movida pela curiosidade e uma necessidade de querer saber. “

“Eu queria saber coisas novas. Mas para conhecer o novo eu precisei correr atrás. Nasci no interior do Paraná, e usava o esporte para conhecer este “novo” através das viagens. Comecei no baseball, onde meu pai era técnico. Depois passei a jogar tênis de mesa, porque viajava mais. Fui campeão paranaense juvenil. Joguei em São Paulo pelo Palmeiras. Viajei o Brasil todo, também pelo Chile e Argentina, sempre através do esporte. Eu gostava do esporte, mas gostava mais ainda de viajar e conhecer gente nova.”

"Terceira fileira de baixo para cima. quarta pessoa contando da esquerda para a direita" Edson Matsuo quando jogava baseball.

"Contador do Juiz de Baseball do pai de Matsuo e técnico CAMPEÃO na foto do time infantil de Baseball de Maringá Paraná  (ele com uniforme atrás a direita e eu na primeira fileira, terceiro da esquerda para a direita)" Edson Matsuo


“Já naquela época, eu desenhava e fazia a minha raquete com o material e a madeira que eu escolhia. Eu mesmo colocava a borracha japonesa. Estudava a batida da raquete. Corria atrás da madeira de caixa de bacalhau e importados para isso, porque raquete importada era caríssima. Muitas vezes a 'viagem' está em você mesmo.”

"Na primeira fileira duas garotas e um menino, sou este menino." Edson Matsuo na época que jogava tênis de mesa


“Minha mãe era mais artista e foi a primeira a me dar uma régua T. O acesso ao novo sempre esteve presente na minha vida. Quando fui convidado a trabalhar na Grendene foi para trabalhar em tudo menos calçado, era para restabelecer o parque industrial que estava parado. Me forneceram acesso a livros importados, viagens e a informações, em uma época que não havia internet."

“Achei que ia ser preso, porque eu estava fazendo o que gostava e ainda ganhava para aquilo. Até hoje estou esperando ser preso, por que amo o que faço."

“O principal foi o acesso a informação e vivência das coisas, isso me deu esse padrão de inquietude, o gosto pela novidade. Respeitar o que você conquistou, mas olhar para frente e pensar o que você quer fazer agora, do novo. Procurar algo novo sempre, não importa de onde venha, e quanto mais fora do seu networking melhor ainda. Buscar novos campos do conhecimentos para ter novos insights. É muito rico o contato com pessoas de outras áreas do conhecimento, sair dos assuntos de sua zona de conforto porque geralmente os assuntos são variações do mesmo tema. Você precisa buscar o desconforto para ligar conhecimentos na busca pela inovação. Só em meios desconfortáveis você encontra a inovação.”

“As viagens também são formas de transição e de sair de nossa zona de conforto, conhecendo o novo. Novos lugares que surpreendem e trazem novas experiências. Traz a riqueza de te deixar desconfortável.”



Sobre a importância de se pensar com as pessoas e nas pessoas.

“Tudo o que fazemos tem pessoas no meio, e muitos acabam esquecendo disso. O calçado não é nada se ele não ‘anda’, se não tem as pessoas se expressando através dele com sua maneira de sentar, cruzar a perna e se portar. O calçado usado é a coisa mais bela que existe, é onde deixamos a nossa ‘digital’, como andamos e por onde passamos.”
 "Devemos sempre lembrar das pessoas. Antes eu escrevia ‘people first’ agora penso em ‘people engaged first’, porque o engajamento é super importante.”

“Para fazermos algo para alguém, você precisa fazer para você mesmo primeiro. Estudar e entender a si próprio: ‘Eu-novação’. Sair da superfície do conhecimento dos outros e buscar o conhecimento profundo de si mesmo.”

“Hoje vejo a necessidade do ‘design to serve’ pois design que não serve, não serve. Isso é muito mais de ‘feel’ do que de ‘think’, o design para servir. O tema ainda é novo para mim, mas esta ai a inquietude.”


Sobre seus projetos

Trabalhando a muitos anos para a mesma indústria vários projetos passaram por Edson Matsuo, mas para ele o próximo é sempre o maior e melhor desafio. Sua entrada na Grendene se deu por causa do projeto do chinelo Rider, que alavancou a empresa e resgatou a Melissa, além de todo o negócio. Hoje é uma empresa de 26 mil funcionários, de capital aberto. Há 14 anos a maior exportadora de calçados do Brasil.

O maior orgulho de Matsuo é a equipe da qual ele faz parte, que conta com 200 pessoas trabalhando juntas. Mas “o próximo projeto tem que ser o melhor pois temos sempre que buscar novos patamares para alcançar, não para os outros, mas para nós mesmos.”

Matsuo não gosta do termo direção criativa, porque acredita que a direção é construída com as pessoas através da química, da empatia e da conexão que você tem com as pessoas. Ele se auto intitula um dos “ativistas criativos” da equipe.

Um líder criativo que desenvolve sua equipe/pessoas/conexão na intenção de que cada um se inspire no que eles próprios vivenciaram, uma inspiração que parte de dentro de cada um, não é imposta. Ele não quer mudar as pessoas, não quer criar necessidades, mas dar o gatilho para algo que as pessoas já tem:

“O grande desafio é trazer a tona o que as pessoas tem de melhor. Para isto você precisa conhecer o outro. Saber o que brilha os olhos. Inspirar é isso! Esta é a mágica que envolve a inspiração."

“Inspiração não é querer pelo outro, não é impor seus ideais ao outro. Devemos inspirar as pessoas, os colegas, não apenas pelos produtos. A mágica está no trabalho em equipe. Infelizmente tivemos uma escola, tanto na arquitetura quanto no design, mais voltada ao trabalho egocêntrico e trabalho autoral do que para o trabalho em equipe, colaborativo. Defendo Design para o estudo fundamental. Para as crianças aprenderem a solucionar problemas. Pensar e executar projetos através do empreendedorismo.”

A postura de Edson Matsuo como responsável pela área de design de uma indústria é de que o máximo de pessoas tenham contato com o produto, para que o mesmo viabilize o negócio da empresa. Um design acessível é o principal para ele, e um bom indicativo é a quantidade de pessoas que usam o produto, não importa se as pessoas sabem ou não quem fez o produto: “Fazer as pessoas sorrirem! Não só a pessoa que usa, mas também a que vende. Toda a cadeia de valor deve estar contente com o produto, inclusive a comunidade que a gente envolve, a comunidade da própria fábrica. É mais sistêmico do que simplesmente um produto.”

Ver um produto que foi feito aqui no Brasil sendo usado na China (220 milhões de pares por ano são feitos na Grendene) é para ele um grande marcador de sucesso.



Sobre o projeto Melissa One by One

Para quem não conhece, Edson Matsuo e sua equipe são responsáveis pela criação de uma nova experiência no jeito de comprar, vestir e usar calçados. Na verdade um novo jeito de pensar calçados. Esta é uma boa descrição do projeto Melissa One by One, que significa “um por um”.




“O projeto da Melissa One by One existe a 6 anos, mas agora foi identificada uma oportunidade de lançamento. Já estava criado e testado. Sabia-se que dava certo, mas tudo tem seu momento. Este é um bom exemplo de que não podemos desistir dos projetos, mas também não podemos forçar. É preciso perceber os sinais do mercado, inclusive a aderência de toda a empresa e do momento certo de lançar um produto. Pois este produto muda toda a forma de pensar o uso de um calçado, incluindo a forma de produzir e vender, pois é vendido apenas um pé e não o par de sapatilhas."

A inovação do projeto está no pensamento modular e interativo, que permite calçar e andar de maneira confortável, tanto com o pé direito, quanto com o esquerdo usando o mesmo modelo. Além de um novo jeito de combinar e comprar. Sendo feita de MELFLEX, formulação exclusiva de polímero (PVC) que garante a eficiência das geometrias do projeto de design, flexibilidade, conforto, reciclabilidade e ainda leva a marca sensorial do “Aroma Melissa” como os outros modelos, mas este projeto traz um novo modelo de pensamento como sua inovação, circular, modular, personalizado e acessível onde cada consumidor constrói a sua própria e única coleção.




A forma de comprar e vender também é nova, pois é vendido um pé da sapatilha, e não em pares, e é exatamente o que permite a personalização e modularidade do projeto que conta com nove modelos, vendidos separadamente. O resultado são 81 possibilidades de combinações diferentes para compor um par de Melissa.

Um projeto “fora da caixa” verdadeiramente, pois quebra padrões de percepção e comportamento de um segmento inteiro de produtos. A modularidade do pé com desenho único para pé esquerdo e direito vai muito além da questão estética, mas também está nela quando se tem lados com estampas e cores diferentes na mesma sapatilha, pois quando se usa no outro pé, a pessoa tem uma percepção completamente diferente do mesmo objeto.

“Algumas referências de calçados com desenho único para ambos os pés são os sapatos chineses de dedo, por exemplo, que também tem um principio minimalista, além das alpargatas ou espadrilhas gaúchas, mas fazer uma sapatilha minimalista é mais difícil” compartilha Matsuo. “Como todo produto novo a própria empresa e equipe ainda está aprendendo com ele . A inspiração é um trabalho conjunto”

“No meu ponto de vista, nenhum produto nasce inovador, quem o torna inovador são as pessoas. O produto é apenas um candidato a inovação, o que mede a inovação é a quantidade de pessoas que aderem e adoram o produto, que divulgam por conta própria e recomendam para outros. A inovação é reconhecida no mercado e não dentro da indústria. Acontece na recepção deste produto pelo mercado consumidor. Na emissão é ego, na recepção é inovação.”

A inovação, aqui, está na quebra do padrão existente e na mudança do modelo de pensamento: da fabricação à venda, uso (trocar de lado, lados com cores diferentes) e acessibilidade, pois pode-se comprar um pé de cada tamanho por exemplo, ou comprar apenas um pé, respeitando as individualidades de cada pessoa.

O design inovador do Melissa One by One foi homenageado no prêmio Brasil Design Award 2014, pelo investimento em inovação e design no ramo calçadista, além do Prêmio BID - Bienal Iberoamericana de Design 2014 na categoria Moda e ainda trouxe à marca gaúcha de calçados a premiação, na categoria produto, do iF Design Award 2015. Matsuo e sua equipe da Grendene também receberam prêmios de Arquitetura nos projetos da Casa Ipanema e Galeria Melissa Nova York.

“O grande prêmio é vender muitos pares e ajudar uma empresa como a Grendene a sempre se desenvolver.” Edson Matsuo



Sobre referências criativas que admira

Matsuo nos traz nomes que pesquisam e falam sobre inovação em negócios para termos novos pontos de vista:

“Uma pessoa que eu gosto muito é o John Maeda que pesquisou no MIT muito tempo sobre simplicidade”

Maeda e suas leis da simplicidade mostram como encontrar maneiras das pessoas simplificarem a sua vida em face da crescente complexidade. Dá para conferir a palestra dele clicando aqui 

“Gosto também do Simon Sinek, que está ligado a inspiração voltada as pessoas mas, ao invés de seu ‘Golden circle’, defendo o ‘Diamond circle’ que trata o ‘com quem’ antes, e o ‘porquê’ depois. Dependendo do COM QUEM o POR QUÊ tem outro significado.”
O 'diamond circle' de Edson Matsuo é uma releitura do 'golden circle' de Simon Sinek, onde devemos pensar primeiro COM QUEM, afinal dependendo do "com quem" o PORQUÊ tem outro significado.



“Tem também os conceitos da Youngme Moon que é uma coreana que fala sobre o diferente”

Youngme Moon da Harvard Business School mostra neste vídeo abaixo uma introdução de seu livro ‘Diferente, quando a exceção dita a regra’ no qual traz o sentido de diferenciação de negócio.






Inspirações e considerações finais de Edson Matsuo

“Você e eu temos já dentro de nós a semente de tudo que seremos e o que precisamos são os gatilhos , portanto desconfio quando ouço o papo de ‘querer mudar alguém e ser mudado por alguém’. O conceito de mudar alguém é ainda da cultura autoritária do marketing de criar necessidades. TRANFORMAR respeita o que você já é. Transformado de estudante em um eterno aluno. A vida que te forma.”

“Se você conseguir ser transformado de estudante em um eterno aluno já valeu a sua faculdade. Brinco que fui deformado e que estou me formando ainda, do jeito que eu quero, conforme sou e vivencio. Porque a faculdade não consegue personalizar, a vida que te dá isso. Este é o contexto da atuação do designer. “

“Isto tudo tem a ver com o ‘design para servir’ que defendo. ‘Design que não serve, não serve’, servir a próprios, a você mesmo, servir ao colega que está ao lado, servir para quem vai usar. Uma visão mais abrangente não só do design como projeto, mas acerca do que você quer da vida e da sua atuação. Esta amplitude tem muito a ver com sua percepção do quanto você quer ficar no conteúdo ou no continente. Continente é maior do que conteúdo.”

“Inovação vira balela se não começamos conosco primeiro. Quem pretende fazer algo diferente que emocione alguém, primeiro precisa se conhecer. Se você não sabe como você se emociona é mais difícil. O design no mínimo precisa conhecer e entender o ser humano.”
“Se conhecer antes. Valorizar mais o ser. Desconfie de uma grande boa ideia, se ela não inspira as outras pessoas.”


Edson Matsuo palestrando


Vocês vão concordar comigo que a abordagem de Edson Matsuo é extremamente inspiradora e a partir desta, sigo os seus conselhos deixando algumas perguntas em aberto, transformando este papo em algo mais colaborativo porque estamos sempre em transformação e podemos rever tudo isto que foi falado no futuro

A idéia deste bate papo é trazer a inquietude para você que lê. Precisamos de gatilhos para elaborar nossas próprias idéias, espaços em branco para a nossa própria inspiração...

Não tem problema deixar espaços em branco para que vocês tirem suas conclusões. O importante é que compartilhemos o conhecimento e que cada um transforme e o elabore para si. Afinal, nada é completamente previsto e tudo tem vida própria. Precisamos ir trabalhando e aceitando o que tem por vir, completamente inspirados pelas idéias de Edson Matsuo!

É disto que trata este bate papo e este blog, sempre com reticências em meio a escrita para proporcionar os espaços de intervenção e apropriação do pensamento de vocês :)

Espero que vocês também tenham sentido um pouco da energia criativa inspiradora deste excelente bate papo, que continua dentro de cada um de nós, providos pelos “espaços em branco” que nos permitem intervir com nossas próprias interpretações!

3 comentários:

  1. fernando mascaro22.10.15

    e, certamente, o banzai tem um balaio cheio de muito mais boas histórias prá contar :) !

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  2. Muito legal carol!! Amei!!

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