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25.11.15

Do que o Design é capaz?

Eu sempre puxo o papo aqui sobre o que podemos fazer enquanto designers, não é? Pois então acho que vale a pena vocês ficarem atentos a dois eventos que acontecem anualmente e tem como foco projetos e profissionais que procuram fazer a diferença:


No Rio de Janeiro temos o Entremeios, que acontece anualmente sempre com convidados internacionais, mesas redondas e workshops. Promovido pelo Laboratório de Design e Antropologia da ESDI/UERJ encerrou o seu segundo ano agora em novembro de 2015. Fiquem atentos a página do evento para a próxima edição.





Em São Paulo teremos este ano a edição do internacional What Design Can Do!  Criado em 2011, para reunir os designers de todas as disciplinas para apresentar e debater o poder e o papel do design como uma ferramenta para a inovação social.








O What Design Can Do! vai acontecer nos dias 07 e 08 de dezembro na FAAP e quer mostrar ao público do que o design é capaz e, principalmente, que o design não se limita a tornar as coisas mais bonitas, mas trata de resolver problemas e melhorar o bem estar humano.

Entre os palestrantes estarão profissionais que sempre falo por aqui no blog :) como Stefan Sagmeister (aqui, aqui, aquiaqui e aqui tb),  o carioca Fabio Lopez (aqui, aqui, aqui, e principalmente aqui) e Bebel Abreu, além, claro, de Alex Atala, irmãos Campana e Marcelo Rosenbaum e diversos outros nomes nacionais e internacionais em um total de 20 palestrantes.





A idéia é juntar designers, arquitetos, jornalistas, estilistas e chefs de cozinha para trocar experiências criativas e discutir sobre visões do design em temas relevantes relacionados com as questões urbanas, consciência cultural e natureza através de debates e sessões especiais com mesas redondas e workshops.

Vocês podem conferir a programação clicando aqui, além de conhecer a proposta das sessões especiais,  que me pareceram bem interessantes.





A edição brasileira tem ingressos disponíveis no site do evento mas você pode tentar a sorte no sorteio de um ingresso para quem comentar e compartilhar (de forma pública) a postagem no facebook do ameDesign clicando aqui :)
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POSTAGEM ATUALIZADA: A sortuda que ganhou o ingresso do evento What Design Can Do Brasil foi Teresa Cristina Fraga Moreira. Parabéns e aproveite muito!
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Entre no site, saiba mais e inscreva-se!

What Design Can Do! São Paulo
www.whatdesigncando.com.br

Dias 7 e 8 de Dezembro
Teatro da FAAP




Se você sabe de outros eventos interessantes, dentro desta temática de inovação social, avisa a gente nos comentários, ok? Queremos saber :)

2.11.15

Empatia
por May Tanferri



Estávamos falando em ativismo no design na postagem anterior, não foi? Pois aqui temos um ativismo lindo, um projeto que saiu do coração e de uma experiência pessoal, o que o torna mais potente ainda. Estas foram as minhas impressões sobre o projeto Empatia de Mayla Tanferri.





O projeto final de graduação da designer May Tanferri é um projeto conceitual com um enfoque muito pessoal de uma grande partilha de sua experiência com o mundo. Um projeto que, provavelmente, foi libertador e vai ajudar muitas outras pessoas com experiências parecidas. Uma forma de reinterpretar sua experiência pessoal com suas cicatrizes de queimaduras e externar um pouco dos seus sentimentos com todos, mas principalmente mostrando a quem está passando pela mesma experiência, que não está sozinho. Uma coisa é certa: ela já tocou muitos com seu projeto!

Empatia é um projeto que questiona o modo como olhamos as cicatrizes, à partir da experiência da designer com um acidente de queimadura. O objetivo de Mayla é mostrar que independente da forma de lesão; uma queimadura, uma cirurgia ou um tratamento, uma cicatriz indica que o corpo se curou, e é uma evidência única de uma experiência de sobrevivência.






O projeto Mayla consiste em duas iniciativas; um curto documentário em parceria com os fotógrafos Deborah Maxx e Gustavo Arrais (acima) que registra o maior exercício da autora, o da exposição -inspirado pela série Scarred for Life de Ted Meyer -, e um kit desenvolvido para crianças e pré adolescentes (no video abaixo) que experienciaram alguma doença, tratamento ou lesão que resultou em uma cicatriz. O objetivo é auxiliar quem carrega cicatrizes pelo corpo, como a designer, e mostrar que uma cicatriz é muito mais do que uma marca: cicatrizes contam uma história.





O kit contém uma bonequinha em formato toy art chamada Mia, que usa malhas compressivas e têm as mesmas cicatrizes de Mayla. Além disso, o box conta com muitas informações, como a importância do uso dessa malha, dicas de alimentação e cuidados para ajudar na recuperação do tecido lesado. A expectativa de Mayla agora é conseguir uma parceria para doar esses kits a quem precisa e, assim, auxilar os pequenos na retomada da confiança e na alegria de viver.













Dá para pensar em muitas coisas admirando este projeto, mas principalmente como o bom design não é apenas gráfico, digital ou de produto. Podemos pensar também no potencial dos projetos conceituais e pessoais, projetos como histórias contadas pelo coração e vinda de uma experiência cheios de potência criativa, de onde podem surgir grandes inovações.

Este projeto foi selecionado para a 11a Bienal Brasileira de Design Gráfico (2015) como Projeto Acadêmico, e ainda ganhou o prêmio de Destaque. Super merecido! Admirem o projeto escrito e criado por May Tanferri também no documento que a designer compartilhou e vocês podem conferir clicando abaixo:




29.10.15

Design ativismo de Fabio Lopez:
por um design com pensamento crítico


Começamos lembrando que todo design, toda escrita e qualquer fala tem uma mensagem a ser transmitida, resta-nos escolher qual será esta mensagem.

Apesar de definições, muitas vezes, não conseguirem explicar as coisas recorro a uma delas :) Começo esta breve conversa sobre ativismo no design trazendo uma definição de designer ativista, que seria:  “uma pessoa que usa o poder do design como um bem maior para a humanidade e para a natureza. É um agente livre, um catalisador social; um facilitador e criador. Alguém que faz as coisas acontecerem". Esta definição é de autoria do designer ativista e escritor Alastair Fuad-Luke, autor do livro “Design Activism – Beautiful Strangeness for a Sustainable World”, de 2009, e de diversas outras produções mais recentes. Foi quem também cunhou o termo Slow Design.  Segundo ele, esse ativismo tem um duplo objetivo: trazer impactos positivos para a vida e o trabalho, e desafiar e revigorar a prática do design.

Podemos também trazer que o designer ativista está ancorado no design autoral e, geralmente, pretende transmitir uma mensagem que considera importante, que têm como fundamento manifestações políticas, ambientais ou sociais.

Tá. Ok. Entendi. Mas como eu faço isso? Bom, nós, designers, podemos contribuir diariamente em nossa atuação profissional. Para entendermos melhor convido-os a conhecer Fabio Lopez, carioca, designer e mestre pela ESDI/UERJ, e professor da PUC-Rio. Em 2015 publicou o projeto mini Rio, uma homenagem e um extenso exercício de representação visual que resultou na criação de mais de 200 pictogramas e padronagens sobre a cidade do Rio de Janeiro. É autor dos projetos War in Rio, Bando Imobiliário Carioca e Batalha na Vala, tríade de paródias que aborda o tema da violência urbana na cidade do Rio de Janeiro. Trabalhou na criação da marca dos Jogos Olímpicos 'Rio 2016' (é ele no video abaixo a partir do minuto 3:06) e desenvolveu a identidade visual do Centro Carioca de Design, além de diversos outros projetos, também pesquisa design filatélico e desenvolve selos postais para os Correios do Brasil.








Sobre a trajetória de Fabio Lopez

"Depois de 15 anos de carreira, ao renovar meu cartão de visitas, escrevi embaixo do meu nome algo que me orgulho muito de ostentar: designer independente. Isso quer dizer que consegui algum tipo de autonomia profissional - bem como confiança e maturidade - para determinar o que quero fazer e onde quero investir meus esforços criativos. Seguramente não era o tipo de coisa que eu almejava como definição quando era estudante ou recém formado. Talvez eu quisesse ter minha própria agência de design, com clientes grandes, cadeiras caras, reuniões intermináveis... Hoje em dia tudo que eu quero é sentir cada vez mais o vento na cara e poder escolher os projetos que desejo realizar - e isso me custou muito empenho para escrever outra coisa no meu cartão pessoal (o que não exclui reuniões, clientes e cadeiras - não tão caras, rs)."




Fabio Lopez acredita que o design gráfico é um poderoso instrumento de produção cultural e discussão política

"Quando assisti o primeiro 'Tropa de Elite' numa segunda feira chuvosa e feia, fui sozinho, pra pensar... O filme já era aquele sucesso: todos repetindo as frases do Capitão Nascimento e idolatrando o Bope como justiceiros da cidade, sem aprofundar o que aquilo significava de fato. Sempre me interessei muito pelas questões de segurança pública da cidade, em função do tamanho do problema e da maneira como ele afeta a todos nós, cariocas ou não. Então tudo isso (o filme e a repercussão) me perturbava um bocado, sobretudo pela maneira excessivamente descontraída como as pessoas estavam se relacionando com um tema pesado, triste e que impactava muitas pessoas de um jeito muito duro para virar piada."

"Saí do cinema num clima pesadão (apesar de ter curtido o que vi, é uma produção muito boa), olhei em volta e pensei 'estou no set de filmagem, que merda'. O filme desceu de lado, e eu resolvi realizar um projeto que há muito adormecia na gaveta. Foi o incentivo, o empurrão e o contexto de criação, ou seja, o caldo onde esse coacervado resolveu vertebrar-se ao contato dessa faísca proporcionada pelo filme do Padilha."

Assim surgiu o jogo manifesto WAR IN RIO de Fabio Lopez.







War in Rio - primeiro jogo manifesto de Fabio Lopez


"O 'Tropa 2' tem um discurso bem mais maduro (assim como o Bando Imobiliário), e conta uma história ainda mais profunda. A sequência me veio instantaneamente, como opção à prostração, tristeza e a desesperança que o filme consolida."










Bando Imobiliário Carioca - jogo manifesto de Fabio Lopez


"Costumo dizer que nem sempre a força motriz de um bom projeto provém de uma energia estritamente 'positiva'. Muito pelo contrário, as vezes raiva, angústia e indignação são elementos mais poderosos para te colocar em ação que esperança ou vontade de fazer o bem. Não só a violência urbana, mas a injustiça social desse país é /ou deveria ser um agente catalisador de grandes projetos pessoais, autorais e independentes. Nem todo mundo tem vocação para ação, mas não é pouca coisa parar o que se está fazendo, ou redirecionar seu discurso para causas realmente importantes - no lugar de simplesmente alimentar a máquina de consumo. São 5 minutos que você rouba das pessoas para desperta-las desse constante estado de anestesia. O resto do tempo é preenchido com entretenimento - algo que tanto aqueles filmes como meus projetos não deveriam ser."
Batalha na Vala - mais um da série de manifestos sobre a violência urbana




Sobre ser um designer ativista 

"Tomando ao pé da letra o termo, geralmente meu ativismo fica por conta de minha atividade acadêmica. É uma geração muito carente de mentores, por que a maioria dos profissionais reconhecidos no mercado está associado à maquinação do consumo e não ao pensamento crítico (como há alguns anos atrás já não foi assim). Nessa batalha silenciosa da academia, estou investindo minhas energias há alguns bons anos."

"Todo designer que está envolvido com educação é ativista por natureza - derive seu envolvimento de uma convicção ou necessidade. Passo boa parte do meu tempo trabalhando em prol da capacitação profissional de novos designers - tenho feito isso nos últimos anos - e essa é uma ação concreta de transformação. Mas não vejo muito sentido em buscar algum tipo de classificação pra determinar se esta ou aquela ação se enquadra na definição clássica de 'ativismo' (no sentido mais físico ou concreto da palavra). Todo projeto é uma afirmação capaz de impactar em algum nível a sociedade: a grande questão é saber de que maneira queremos fazê-lo, qual a mensagem, ou quem e o quê estamos querendo transformar."



Sobre o papel dos designers na realidade social e política de nossas cidades, país e mundo

"Designers sabem manusear como poucos profissionais ferramentas de comunicação muito poderosas: vivemos num mundo intermediado por imagens, e somos produtores altamente capacitados de forma e conteúdo. Podemos usar nossa expertise profissional para convencer as pessoas a amarem uma marca ou ampliar as vendas de um salgadinho - ou para evidenciar, destacar e denunciar algo importante e de interesse coletivo. Infelizmente, a grande maioria dos designers não pode simplesmente escolher um caminho pelo qual deseja seguir: o dinheiro circula através das redes de financiamento do consumo e romper com essa estrutura nem sempre é uma opção simples, ou uma escolha propriamente dita. Gostaria muito que todos saltassem desse bonde desenfreado do consumo, mas isso é uma utopia à qual não me permito acreditar. Quem sabe criamos linhas paralelas de atuação, até criarmos modelos de financiamento capazes de competir em pé de igualdade com a indústria do consumo. Aos pouquinhos, cuidando com mais carinho das novas gerações, proporcionando espaços de reflexão, experimentando alternativas de empreendedorismo e remuneração independente, talvez equilibremos essa balança. O que não podemos aceitar é a ditadura do consumo como modelo único de atuação: essa é uma compactação atrofiada de nossa capacidade profissional, inadmissível. Podemos muito mais que isso!"


Fabio também criou o manifesto "12 passos para um Design não solicitado"  no qual o texto sugere em 12 etapas a criação de um design propositivo e não solicitado para fazer a diferença. Neste, Fabio Lopez pensou no designer empreendedor e no designer ativista porque "o designer ativista é um empreendedor de causas e discursos. Então é uma separação muito sutil, geralmente associada à remuneração ou exploração comercial de suas ideias. Mas até isso pode ser relativizado."



"O 'manifesto' é uma adaptação de um texto muito interessante do arquiteto australiano Rory Hyde, que propõe em seu campo de trabalho e pesquisa uma atuação pautada pelo empreendedorismo pessoal através de iniciativas 'não solicitadas' de projeto. Ou seja, você encontra o problema e/ou oportunidade no seu entorno e propõe uma solução ou ação projetual, sem necessariamente a existência de um cliente ou de uma demanda formal de trabalho. Estou trabalhando para consolidar o projeto mini Rio como uma oportunidade comercial independente e propositiva, por exemplo. Não sei se a ideia original de Mr. Hyde estabelecia algum tipo de distinção entre 'ativismo' e 'ação empreendedora', mas eu não faço isso nessa versão adaptada. Não sei se por 'ativismo' as pessoas entendem uma ação dissociada de remuneração ou retorno financeiro, mas isto não está lavrado em nenhuma parede de mármore ou nos 10 mandamentos do bom designer, rs. O designer-empreendedor é ativista por natureza, assim como o professor, assim como o cara que trabalha pelo salgadinho safado (um mau ativista), e também aquele que propõe algum tipo de reflexão sobre sua prática profissional..."

"Design é ativismo, e nesse sentido é muito importante refletirmos sobre as causas pelas quais nos colocamos em ação." Fabio Lopez



A intenção aqui é provocar o pensamento crítico de nossa atuação enquanto profissionais. No meu ponto de vista o profissional de Design tem acesso a conhecimentos importantes, e cabe a nós aplica-los da melhor forma possível.

Nossa atuação profissional é a forma como colocamos em prática todos os valores no qual acreditamos como ideais para a nossa vida e da nossa sociedade. Porque não sermos mais críticos e mais conscientes de nosso papel dentro do social?

Toda idéia tem uma intenção :) É disto que trato neste blog, buscar novos pontos de vista do mundo, das coisas, a partir das pessoas, novas abordagens sobre os antigos problemas e que estas sejam principalmente mais conscientes. Precisamos assumir a nossa responsabilidade quanto ao papel de cada um em relação ao seu projeto. Seja qual ele for! Afinal quem aqui já parou para pensar que ao mesmo tempo que criamos peças lindas de design também criamos resíduo? A responsabilidade ai é nossa, vamos assumir este papel!

Face a Book - ilustração de Fabio Lopez


Nada melhor para finalizar esta postagem com chave de ouro do que trazer uma frase de Fabio Lopez direto do site de um de seus jogos:

Faça das horas vagas um tempo nobre, dedicado ao exercício de questões pessoais e boas idéias. Sua profissão pode ter um papel fundamental na criação de uma comunidade mais engajada e consciente.

Torne visível o que te incomoda:
o design é a sua voz!

Curtiu as idéias de Fabio Lopez? Ele estará na DOCA no Rio de Janeiro, hoje, dia 29 de outubro de 2015, para falar do seu mais recente projeto Mini Rio, clique aqui para saber mais.

Você pode ver grande parte dos projetos de Fabio Lopez lá no seu Flickr e no seu Issuu e acompanhar as novidades do projeto Mini Rio pelo facebook do projeto

26.1.15

Dessalinizador de água caseiro e portátil





Em tempos de falta d'água que todos percebem a importância de um projeto destes! O designer italiano Gabriele Diamanti desenvolveu o projeto do Eliodomestico de 2005 a 2012, ano em que recebeu diversos prêmios pelo projeto. Em 2011 seu projeto foi publicado em diversos veículos de comunicação e hoje, 2015, percebemos o potencial e importância do mesmo.



O dessalinizador de água caseiro Eliodomestico é um projeto aberto sob licença Creative Commons, ou seja, você pode construir o seu mas precisa citar a fonte original.






O projeto que Gabriele desenvolveu é um destilador de água que funciona com o calor do Sol, feito de terracota, plástico reciclado e zinco anodizado o dispositivo produz 5 litros de água potável e foi projetado utilizando tecnologias tradicionais, funciona sem filtros nem eletricidade, e requer uma manutenção mínima. Além disso, pode ser construído com materiais extremamente baratos, disponíveis em praticamente todos os países do mundo (é feito de cerâmica/barro cozido).

É bem fácil de usar: na parte da manhã deve-se encher o tanque de água com água de uma fonte local, deixar exposto ao sol direto por, pelo menos, 8 horas, e à noite coletar a água dessalinizada na bacia da base do aparato. Boa idéia! Acho que vai ter gente querendo um para ter em casa, hein?







Uma dica do grande Guto Lins

12.1.15

Letras que Flutuam:
tipografia popular nortista







Trago hoje uma entrevista sobre um belo projeto que resgata, retrata e registra um saber popular brasileiro, pesquisado na região Norte do Brasil. Acompanhem a entrevista com as idealizadoras do projeto "Letras que Flutuam", as designers Fernanda Martins e Sâmia Batista, e não deixem de acompanhar o trabalho que está sendo feito lá no nosso estado do Pará.




Foto de Sâmia Batista

Foto de Sâmia Batista


Como surgiu o projeto? Quais as motivações pessoais que as levaram a esta pesquisa?

O projeto iniciou em 2004, assim que a designer Fernanda Martins se mudou para Belém. Por ser tipógrafa logo percebeu algo especial nos letreiros dos Barcos e começou a registrar. Era clara a referência às letras decorativas vitorianas. Depois de milhares de fotos e muita insistência da, também designer, Sâmia Batista, Fernanda resolveu explorar mais o assunto e fez uma especialização na UFPA onde tratou deste assunto mais profundamente.

Era um saber invisível, nem mesmo os paraenses percebiam o fato. Essa é a maior qualidade do projeto, trazer a tona este saber local.

Fernanda Martins durante a pesquisa.

Qual o objetivo do projeto? Quais as descobertas que a pesquisa tem revelado?

Em um primeiro momento era entender essa manifestação popular sob a ótica da tipografia e do design. Constatamos que esta manifestação ocorre desde Manaus, ao longo do Rio Amazonas. Também que há uma relação formal com a Tipografia Vitoriana mas não foi possível, naquela época, encontrar a relação real. Sabíamos de várias evidências materiais da época mas nada muito revelador.

Bem, no ano de 2013 entramos no Edital Amazônia Cultural do MinC com o objetivo de realizar um mapeamento deste ofício. Quem seria esse profissional? Como aprendeu? Ensinou outras pessoas? qual sua técnica? E mais, queríamos divulgar, ampliar este conhecimento, ensinar os jovens como uma forma de geração de renda atrelada a cultura local.

Daí surgiu este projeto, além das 40 entrevistas com mestre Abridores realizadas em agosto, que geraram um vídeo (que esteve na expo Cidade Gráfica), os objetivos eram realizar oficinas na cidades acessadas, com os mestres ensinando jovens ribeirinhos, envolvendo as escolas e o poder público, de forma a ampliar o interesse sobre o tema e talvez estimular outros jovens a se tornarem profissionais.

Em cada cidade, depois das oficinas será montada uma exposição dos trabalhos dos mestres (todos os entrevistados) e dos alunos, com o vídeo realizado, para que eles se vejam, se reconheçam e se orgulhem deste aspecto da cultura que era pouco valorizado.

O projeto passou por diversas localidades ribeirinhas descobrindo
quem são os mestres abridores que enfeitam os rios da Amazônia,
com as letras que flutuam.

Conte como tem sido o desenrolar do projeto para todos nós.

É um projeto de dificil operação, como qualquer projeto na Amazonia: distâncias, barcos, comunicação difícil, pouco interesse do poder público. Mas somos uma equipe muito envolvida e o Edital permite que seja possível realiza-la. O pior entrave é a falta de interesse do poder público pelas manifestações populares. Apenas uma prefeitura nos apoiou.

Foto de Marbo Mendonça




Porque o nome “abridores” de letras? O que estes sujeitos representam dentro de suas comunidades? Qual o valor percebido deste “fazer” para a cultura local dos envolvidos?

O ato de pintar a letra em uma superfície, seja barco ou parede é denominado "Abrir letras”. O profissional pintor, é o abridor. Localmente faz parte do universo Ribeirinho, identificando as embarcações, embelezando-as e demonstrando o cuidado que o dono tem por ela. Em um âmbito acadêmico, como expliquei, era invisível.


O projeto tem promovido workshops em comunidade ribeirinhas, certo? Conte-nos sobre os objetivos e resultados destes encontros.

As oficinas estão sendo realizadas neste momento, e muitos jovens talentosos estão se revelando. Mas acredito que o resultado mais importante é o grande interesse que as oficinas geraram e o fato de obtermos a participação da Prefeitura, e Secretaria de educação e cultura nas atividades. Seria muito bom que estes profissionais passassem a ser convidados a atuar em outros eventos, gerando renda para eles.

Também exporemos em Belém, depois de oficinas, para ampliar a visibilidade e valorizar este aspecto da cultura local. Em ultima instância, acreditamos que ele precisa ser encarado como uma referência para os designers da Amazônia.











Quem quiser ler a monografia (texto de 2007) de autoria da designer Fernanda Martins em sua especialização em Semiótica e Cultura Visual no ICA/UFPA, que deu origem ao projeto Letras que Flutuam, pode baixar clicando aqui. Abaixo matéria exibida na TV Cultura sobre o projeto, que vocês podem acompanhar pela página do facebook Letras Q Flutuam.




Admito que adoraria fazer um dos workshop de abridores de letras, e vocês?